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COLUNA DA MICHELLE RISTOW: As escolas e as formigas

Texto 12

Certo dia, estava conversando com um amigo e falávamos sobre as colônias de formigas, como elas se movimentam, se organizam e se estruturam para conviverem tão juntas em sociedades tão complexas. São inúmeras em um formigueiro, com trabalhos e responsabilidades entre elas. Desde as formigas que vivem no subsolo e que criam túneis para permitir a circulação de ar pela terra até as que constroem seus próprios ninhos e os compartilham com formigas de espécies diferentes. De tudo isso elas são capazes.

Mas o que mais me chamou atenção foi quando ele me contou que as formigas encontram comida deixam um rastro de odor até o ninho para as outras seguirem. Pensei: Uau. Que tal sermos, em nossas escolas, como as formigas?

Refleti sobre a nossa relação como professores dentro do espaço escolar e algumas perguntas apareceram. Deixamos rastros das reflexões boas que acontecem com o nosso grupo de crianças? Permitimos que os outros colegas saibam da nossa prática com a turma dos adolescentes? Compartilhamos o que deu muito certo e também o que não deu certo para dividir e aliviar as nossas angústias? Somos parceiros nas instituições que trabalhamos? Em conjunto, tornamos leve o nosso esforço? Pausamos em grupo para respirar e nos olharmos no meio do turbilhão de emoções que vivemos?

Se acreditamos que a educação se faz a partir de um coletivo de pessoas em que essas pessoas constroem e convivem com outras pessoas e, assim, passam a conhecer a realidade do outro e transformar, então, o seu próprio contexto e se desenvolverem muito mais como seres humanos, por que sermos, tantas vezes, individuais, limitados, apreensivos e rígidos quando o maior dos aprendizados é a interação e a partilha com o outro?

O que, das formigas, podemos copiar sem medo de sermos felizes e de trazermos, para dentro das escolas, dos grupos e das turmas, a prática da coletividade que potencializa os agentes do processo – adultos, crianças e jovens – como seres humanos integrais de um percurso e não partidos em pedaços?

Lembrei de um ocorrido do ano passado em que os materiais da escola se tornaram coletivos. As crianças não tinham mais um lápis para cada, nem uma borracha para cada, nem um apontador para cada, muito menos um conjunto de lápis de cor ou de canetinhas para cada um. Os materiais eram de responsabilidade de todos e prezar pelo cuidado desse material também. Inúmeros eventos aconteceram em função disso. Falas como: Não estou encontrando lápis para escrever. Não estou vendo borrachas aqui. Preciso de um apontador para apontar o lápis. Falas assim surgiram e os questionamentos de alguns pais também. Eu entendi cada questionamento, mas também não deixei de validar a importância desse “caos” para as coisas começarem a ser vistas de modo diferente. Antes, cada um tinha o seu e ainda acontecia de perder. Agora, tudo era de todos e ainda não encontravam? Como resolver? Novamente atravessando uma nova experiência e vendo o que dela podíamos ressignificar. Não foi fácil e não é fácil, o desafio continua. Mas a importância de olharmos para o bem comum com cuidado e apreço é também uma habilidade a ser desenvolvida. É um trabalho de formiguinha, mas podemos, desde o começo, trabalhar com as nossas crianças e dentro das nossas famílias.

(Eu sou a Michelle Ristow. Transformadora de mim mesma. Uma sonhadora consciente da realidade e esperançosa por natureza. Acredito na relação que oferece espaço, promove autonomia e considera o lugar de fala do outro. Gosto de aprender brincando, ouvindo histórias e conversando.)

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