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COLUNA DO FABRÍCIO LEOMAR: Rir é um ato de (r)existência

Texto 3

 

Quando uma pessoa morre, vivemos a dor do luto, em intensidades e maneiras diversas, é verdade. Os sentimentos que chegam não são os mais agradáveis, todavia, acredito que é importante sentirmos as diversas emoções que nos chegam, que nos tornam humanos, para que saibamos lidar com elas em nossa trajetória de vida. A pandemia do coronavírus já tirou a vida de milhares de pessoas, algumas que conhecemos, com as quais convivemos, outras que nunca ouvimos falar e, ainda, outras que são figuras públicas, como atores, cantoras e atletas. Sabemos que muitas dessas mortes poderiam ter sido ser evitadas, que muitas dessas dores da perda poderiam não ter acontecido. Mas não é de como o Brasil vem tratando a pandemia e nem do desgoverno que temos que venho falar aqui. Venho falar de uma morte enlutada por mim e que me trouxe algumas reflexões educacionais.    

Nunca fui um assíduo telespectador dos trabalhos do ator Paulo Gustavo, mas acompanhava a sua carreira, sua crescente fama ao longo dos últimos anos e a repercussão na mídia das suas peças, filmes e programas. Além disso, acompanhei, assim como muitos brasileiros e muitas brasileiras, a sua luta para sobreviver à Covid-19 e as diversas homenagens após sua morte. No entanto, foi uma frase sua, dita no especial de fim de ano do programa “220 Volts”, lembrada em vários tributos à sua pessoa, que me chamou a atenção: rir é um ato de resistência.    

A frase mexeu comigo, pois, se rir é o um ato de resistência, o que eu, como professor, estou fazendo ou já fiz em relação à minha atuação docente? Promovi possibilidades de risos dentro do meu convívio com os estudantes? A escola é, majoritariamente, um espaço de alegria? Tais reflexões me lembraram de dois episódios ligados à Educação Física: uma como estudante do curso de licenciatura, e outra como professor na escola. Como estudante, eu ouvia de pessoas de outros cursos que nós, da Educação Física, fazíamos um curso fácil, tranquilo e divertido, porque era só jogar bola e fazer brincadeiras. Naquela época, respondia que não era bem assim, que tínhamos aulas de Anatomia, Fisiologia, Sociologia, Antropologia e Didática, e queria mostrar que era um curso sério, que pressupunha dedicação e estudo.    

na escola, é comum para nós, professores e professoras desse componente curricular, ouvirmos: lá se vai a garotada se divertir na aula de Educação Física. Quando ouvi essa fala pela primeira vez, fiquei com raiva. Era como se ela desse um descrédito para minha área de estudos, como se fosse mais um recreio, um lazer, um horário livre. Hoje eu penso: é ruim aprender se divertindo? Por que é preocupante uma aula com risadas e alegrias? Então, nas outras matérias, os discentes são rabugentos, tristes, sérios, calados? Seriedade é sinônimo de sabedoria? Silêncio é sinal de aprendizagem? Que bom que, no curso, a gente se divertia, aprendia, gargalhava e debatia. Que bom que, nas aulas de Educação Física, os estudantes se sentem livres, leves, soltos, se divertem, aprendem e também criam consciência crítica, social e resistência. Que bom que sentem prazer em estar. Não era assim que deveria ser nas outras aulas? Não era assim que deveria ser uma escola? Rir é um ato de existência.   

(Eu sou o Fabrício Leomar, graduado em Licenciatura em Educação Física pela Universidade Federal do Ceará e mestre em Educação pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Sou professor em uma escola pública de tempo integral no município de Fortaleza-CE. Sou um docente com interesse pelas relações entre corpo, aprendizagem e práticas escolares inovadoras. Acredito na educação pública. Faço dos sonhos utópicos o meu caminhar.) 

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